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O
cego, o espaço, o corpo e o movimento:
Uma questão de Orientação e Mobilidade
A visão se apresenta como um sentido de grande importância na captação de estímulos
e projeções espaciais, facilitando o relacionamento do homem na sociedade. De
acordo com Hall, a percepção de um cego atinge um raio de seis a trinta metros,
enquanto as pessoas com visão poderiam atingir as estrelas. Além disso, na maioria
das vezes, os cegos têm comprometidas as suas relações pessoais, através da
exclusão social, pois fogem do padrão de normalidade estabelecido.
Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1993, 10% da população
brasileira é portadora de deficiência, sendo 0,5% portadores de deficiência
visual, num total aproximado de 700 mil cidadãos.
Vários segmentos da sociedade, a exemplo dos idosos, crianças e deficientes
e, no caso específico deste estudo, os cegos congênitos, estão à margem da sociedade.
Segundo Lemos (1981), estes cegos, cuja perda de visão ocorre a partir do nascimento
até cerca de cinco anos de idade, ocupam um espaço marginal por não apresentarem
produção como as pessoas ditas normais. Para Glat (1995), o “isolamento social
dessas pessoas ainda persiste”, e elas poderiam estar ocupando espaços considerados
dignos em nossa sociedade, ou seja, o espaço social, que para Bourdieu (1990)
funciona como um “espaço de estilos de vida”, onde deve ser valorizada cada
ação individual.
O corpo é um espaço; quando valorizamos a ação individual estamos respeitando
o espaço corporal. A construção espacial é simbólica, e é no corpo que sua noção
é registrada. Por isso ele é o espaço fundador, referências dentro e fora, sair
e entrar, engolir e expelir, projetar e incorporar. De acordo com Merleau-Ponty
(1994: 328), “o espaço não é o ambiente (real ou lógico) em que as coisas se
dispõem, mas o meio pelo qual a posição das coisas se torna possível”. E tudo
isso é apreendido pelo corpo.
Nesse sentido, o corpo constrói uma relação consigo mesmo, através da imagem
corporal elaborada em sua apreensão de mundo. Para Vayer (1985: 93),
As pessoas cegas, assim como as videntes, não constróem sozinhas o esquema corporal.
No jovem cego congênito, além da necessidade do toque corporal, há também a
necessidade de diálogo verbal com os pais, sobre o esquema corporal e a imagem
do seu corpo. Contudo, conforme Telford & Sawrey (1988), se este diálogo
verbal não for bem esclarecido, devido à perda de elementos da comunicação não-verbal
(posturas, gestos e expressões faciais), a imagem do corpo do cego congênito
poderá ficar deturpada, influenciando no seu movimento.
O movimento, além de abranger atos motores, atinge também a dimensão social,
como o direito de ir e vir. Para Bourdieu (1989), o espaço de relações é tão
real quanto o espaço geográfico, ampliando a expansão do indivíduo, permitindo-lhe
variar a rede de relações corporais e sociais. O deslocamento nos diferentes
espaços proporcionará ao indivíduo cego estímulos da memória e da organização
espaço-temporal a fim de propiciar maior interação com a sociedade, evitando
o seu isolamento e permitindo movimentos do corpo. O movimento corporal, ao
ser racionalizado, recebe grande influência do meio social. Le Boulch (1988:
51) refere-se ao movimento da seguinte forma:
Telford
& Sawrey (1988) apontam algumas dificuldades, que, além de privarem os cegos
de importantes pistas sociais, provocam racionalizações dos movimentos para
sua adaptação: a) impedimento direto à palavra impressa; b) restrição da mobilidade
independente em ambientes não familiares; c) limitação de percepção de objetos
grandes demais para serem apreendidos pelo tato.
A
racionalização do movimento corporal na pessoa cega é mais prejudicial porque
dificulta o conhecimento da distância em relação a objetos ou ao tamanho do
espaço. Segundo Fonseca (1995), isto ocorre porque o conhecimento do corpo é
transformado em conhecimento do espaço, através da intuição e da conceituação
lógica, já que, para o autor, a organização espaço-temporal está integrada com
motricidade, e a relação com os objetos que ocupam determinado espaço se dá
a partir do próprio corpo.
Fonte:
Benjamin Constant
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